SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
PROSA, VERSOS E OUTRAS FALAS
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Textos

UMBRAL

Andávamos pelas ruas

tocando

pra pagar contas.

Tínhamos ideias,

muitas,

algumas empoeiradas

pintadas

em cartolina,

aquarela barata.

Ouço o martelo soar

contra o sino,

aviso

que se repete, pois

nunca me virei

e olhei o rosto fatigado.

Estava ocupado

tentado a salvar o mundo

ou morrendo de tédio.

Aqui há somente colheres de chá

e um trem de areia

- ao trabalho,

só parem no último apito

ou suspiro.

Os figurões fazem crer

que os mortos não nos seguirão.

Fumam de modo elegante

atrás da mesa,

ainda nus.

Não é estranho?

No mais, já é hora,

a cidade está em silêncio.

Pendurado nas roupas,

desço do palco

menos orgulhoso

e peço moedas

para a última refeição

de uma vida,

que não estava ganha.

A boca está seca

e os olhos rasgados

de tanta realidade.

No último degrau

o marinheiro lança

flores de plástico

e pede:

- Ei, passe essa bússola,

quero usá-la em algum lugar,

num destino salvo

em um cartão postal.

É aí que você lembra que

já faz tempo e

deve voltar pra casa.

 

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 29/04/2025
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