Eu gostaria de falar sobre um estranhamento. Imagine-se no seu sofá, entra uma pessoa e joga um livro qualquer no seu colo. Pior, sai sem a menor explicação. Quem deixou ela entrar? Com que autoridade acredita que eu queira ler aquele volume? Não interessa se você está aborrecido, indisposto ou ocupado, simplesmente o ato acontece como um: “Toma esse livro, leia e admire minha perspicácia cultural, senão fico magoado!”.
Diante de tal fato, sirvo-me do direito de acreditar na existência de uma excêntrica volúpia experimentada pelo intruso que tenta causar espanto, provocar uma gargalhada borbulhante ou demonstrar profunda sapiência. Imagino aquele seu risinho de canto de boca seguido de um surto de orgulho por ter, supostamente, provocado algum sentimento através do conteúdo lançado sobre o colo alheio. Ora, proponho, por que não dizer uma ou duas palavrinhas: “Gente, esse texto me fez pensar nisso ou naquilo”? Custa?
Quando guri, meu vizinho Dema era o dono da bola. Ele tinha um jeito peculiar de convidar para jogar futebol, simplesmente a lançava no meu pátio sem uma única palavra. Não interessava se havia alguém que pudesse ser atingido pelo meteorito de couro. Era um sinal vindo das alturas. Hoje seria como um “partiu futebol”.
O Dema tinha o prestígio da posse, portanto, acabava com o jogo quando estava perdendo. Transitava entre a infantilidade, a solidão e o sentimento de superioridade. Esse combo impedia-o de perceber que os outros mereciam a mesma atenção que ele requeria.
Só para constar, veja que a circunscrição do mundo de nossa infância é o horizonte da vizinhança, a começar pelo pátio de nossa casa. A maneira do Dema controlar as cercanias de sua vida era afetar o meu espaço-tempo com um objeto de couro, tal qual aquele outro que atirou o livro. Penso que algo acontecia quando a bola batia no chão do nosso pátio. O Dema transformava-se na bola para se fazer presente, causar surpresa e, disto, supor-se admirado e acolhido. Era um efeito “Nescafé”, em que ele se transformava instantaneamente em algo que idealizava.
Pois é, estou aqui olhando o meu celular. Certamente não lerei ou ouvirei nenhum daqueles longos textos, pesados vídeos ou arquivo de voz que entram pela sala desacompanhados de explicações capazes de me convencer a dar-lhes atenção. Vale dizer, essas aparições no máximo trazem um “Encaminhadas com frequência”, “Nota importante”, um “Leia até o fim”, “Para refletir” ou o enigmático “Será que é verdade?”.
Na era da conectividade, das ditas ilimitadas tecnologias e de sua pedante inteligência, que por mais que se tente continuará a ser artificial, parece que vivemos confinados em pequenas telas onde uma bola de couro lançada pelo Dema pode aparecer inesperadamente. Daí posso imaginar a esfera sendo segurada pela mão do vizinho que, em sequência, a arremessa novamente para a outra casa e, assim, segue em ato infinito. Óbvio, que as pessoas não compreenderão o motivo da bola ser jogada em seus pátios, não sabem das razões do Dema.
Há dias em que as pessoas são tomadas por um imenso vazio, como se não tivessem entranhas. São dores reais que causam extremo desconforto, então, no desespero por preencher esse algo faltante, elas vão para as telas, apanham um fardo de arquivos e os repassam em vídeos e textos, “sem dó”. Desta maneira imaginam-se partícipes do mundo, como crianças apontando o dedo para seu montinho de areia achando ser um castelo. Nessa prática tão comum, presumo que se encontre alento em um mundo de falas prontas socadinho em megabytes de compensações, carimbando um passaporte para o mundo do “parecer ser”.
Porém, nada é ao acaso. Tais comportamentos são muito bem induzidos e explorados pelas empresas de tecnologia. Para tanto, aciona-se uma intensa sensação de prazer a cada mensagem recebida e logo encaminhada como uma “boa nova”, já puída, postada pela terceira vez na mesma hora e lugar. O êxtase completa-se com a “curtida” recebida e prepara o reinício do ciclo. Digo, para evitar mal-entendidos, que analiso isso com muita seriedade por se tratar de sofrimento humano. Parte-se da busca pela aprovação, pela validação e chega-se ao excesso, ao descontrole e à dependência.
Acresço, essa ânsia por impressionar, através de um produto alheio que provoca uma emoção, bloqueia qualquer avaliação, ou reflexão, sobre veracidade e pertinência do seu conteúdo. No pátio da tela de um Android ou iPhone ocorre a perda da confiança no valor da própria palavra, da expressão sincera e genuína sobre aquilo que está à sua frente. Creio haver até um temor em se dizer um “não sei” ou “não entendi”.
Além disso, existe um outro componente na dinâmica das redes. Caso alguém ouse contrariar o conteúdo postado, provavelmente deflagrará um profundo desconforto que poderá levar à velada sanção de ser ignorado em suas futuras postagens. É uma medida tácita por se desestabilizar o sacro ritual de empilhamento, digo, encaminhamento. Afinal, ele se completa formalmente com a resposta dada através de um ou dois emojis, cuidadosamente escolhidos.
Como revelar tal fato sem frustrar aquela tentativa humana de acolhimento e reconhecimento? Eu gostaria de falar que acho isso muito estranho, mas sem usar uma mensagem desgastada de tanto quicar por aí. Quem sabe uma bola de basquete, hem?
(Crônica publicada na Antologia da Casa do Poeta de Santa Maria, RS, 2025)