SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
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     ARTE: DA ADMIRAÇÃO E DA SINCERIDADE

 

    No livro Como Formar o Gosto Literário, Arnold Bennett aborda o gosto literário como um meio de vida que não se restringe ao mero adorno pessoal e nem ao lazer. O gosto literário é um processo regular, gradual e não imediato, baseado na agradabilidade, e não na obrigação ou imposição. Importante, conduz à autonomia, pois ninguém que diga ao leitor que o livro é bom ou ruim o impelirá a desconsiderar sua própria opinião formada sobre a obra. Portanto, um processo intimamente ligado à maturidade pessoal.

   A Arte, através das suas formas ─ letras, pintura, música, escultura ─ propõe estados experienciais que despertam na pessoa a ânsia pelo belo, pelo bom e pelo verdadeiro. Essa apreensão, transmutada para vida prática, aprofunda na alma as impressões da humanidade que a cerca e a compõe, permitindo fortalecer a estrutura intelectiva ao exercitar a relação entre os símbolos (e suas abstrações) e a realidade. Em um espiral virtuoso, o leitor enriquece-se de imaginação e da fantasia lírica, vivenciando a excelência da arte e da literatura, apreendendo seus distintos gêneros, absorvendo as palavras, frases e ângulos do texto, entre tantas possibilidades.

    Além disso, na sua pretensão de tornar-se escritor, os candidatos talentosos, primeiramente, precisarão explorar obras nessa extensão. Contudo, o intento não cessa aí, pois produzirão literatura na medida em que transportarem as grandes obras para sua vida prática. É nesse vórtice de ação vivencial e de intelecção, que alcançam as tensões humanas entre o bem e o mal, entre a pureza e a impureza, o justo e o injusto, a coragem e a covardia, etc. Então, essa caminhada, fortalece a própria personalidade apurando a detecção daquilo que a estrutura da realidade oferta como tema a ser expresso, mesmo que o resultado não seja do agrado das narrativas correntes.

    Retornando à investida sobre o estado vivencial do ser humano, destaca-se, primeiramente, que a literatura é um caminho para ampliar a realidade, diferenciando-se do registro histórico, que fixa essa realidade no espaço e no tempo. Outro ponto, já tratando da arte em geral, diz respeito à apreensão do objeto artístico e à sua admiração, em um ato contemplativo espontâneo. Entenda-se como ato contemplativo a união imediata entre o ver e o apreender; é a apreensão instantânea da causa no efeito; é a completude entre forma e conteúdo, instante em que a imagem se estabiliza e ultrapassa a si mesma ao encontrar o sujeito apreciador. Logo, o chamado à contemplação tem íntima relação com a mancha originária criadora da obra; é a apreensão da unidade viva decorrente do fluxo impressão-imagem-expressão; é a síntese estética: sentimento (sem ser sentimentalismo) e imagem.

   Focando no aspecto da admiração, apresenta-se como referência a percepção de Benedetto Croce, no livro Breviário de Estética, quando diz que admiramos na obra um estado de ânimo que reconhecemos como vida, unidade, compacidade e plenitude. A obra comunicada é a forma na qual se fixa, revela-se e atualiza-se a intuição do artista. Nela está a unidade espontânea e vital, que percute a sua admirabilidade.

Diferente disso, seria a tentativa de alcançar, ao acaso, tal unidade expressiva, utilizando-se, por exemplo, de uma combinação de palavras ou imagens, esperando que, do nada, ocorra esse sopro original de naturalidade. Tal empreitada pode ter forma, mas a unidade vital está comprometida por uma série de sobreposições artificiais e estéreis, que não apresentam uma harmonia capaz de suscitar a admiração. Sente-se algo como se a metáfora estivesse presa apenas na propriedade que representa, sem conseguir transmitir experiência alguma, sem camadas e sem produzir o salto imaginativo.

    A arte é intuição pura e expressão pura, sem se despir da lírica. Vale dizer que é plena de humanidade, evoca emoções e sensações que circundam a sua presença, a sua apreensão e apreço. Nessa relação, também está presente o desagrado surgido diante de uma obra, aquela sensação de que há algo errado, imperfeito ou falso. O juízo estético é algo íntimo e inevitável. Esta sensação decorre de uma denúncia de contrastes não unificados, quando o artefato é vacilante e transmite arbitrariedade de esquemas trazidos de conceitos e crenças, a que o autor julga ter de se submeter, além de sua comoção de afetos extraestéticos. Ora, a criação não é uma luta desesperada para responder nem à prepotência do autor, nem aos caprichos do apreciador do objeto.

    É por essa razão que se experimenta a decepção frente a uma obra que promete riqueza de imagens, mas que apenas entrega escombros sem um acento central. Assim como se um personagem surgisse do nada em um romance, entrasse em cena e desaparecesse logo em seguida; ou como aquela palavra lançada na frase, que, ao ser lida, conduz a um embotamento; ainda, seria como a tentativa de colar imagens aleatórias em um pedaço de pano e tentar fazê-las criar vida através de um choque elétrico. Acrescente-se a tais exemplos, a tentativa do sujeito usar a obra de maneira narcisista para atrair atenção para si, ela será um mero álibi esboroando-se sob uma atroz deselegância e descaso.

    A inexistência da força vital na obra traduz a ausência de ação do espírito do autor, a falta de sinceridade. O ideal que anima o espírito do poeta, por exemplo, traz uma dinâmica que está na unidade dramática, na unidade de ação e no interesse direcionado ao artefato. Então, sim, encontrar-se-á na sua expressão artística, uma manifestação que prontamente provoca na mente do observador, leitor ou ouvinte um estado de pertencimento, sentimento de prazer ou pesar, cria uma relação natural entre o sujeito e a realidade, entre ele e si mesmo. Note-se que é um processo de convite, persuasão e encontro de um querer, ao qual somos naturalmente inclinados como seres humanos. Um querer que antecede o objeto artístico com o qual se tem contato. Um querer conectado a um pressentimento. Por isso, não se deve condenar a arte que fale por si, mesmo que nasça da tentativa de cooptação, da propaganda, egoísmo, da prepotência e, portanto, lhe perpasse uma intenção cortesã de alguma causa. Não há de ser desprezada, pois, diante da maturidade do sujeito que a apreende, haverá um impulso no sentido contrário ao que o artista busca impor.

    Reconhece-se que há um discernimento intrínseco ao ser humano, que antecede a expressão contida no artefato. Existe um senso de validação que lhe exalta o ânimo diante do objeto considerado belo, lírico e de vitalidade genuína. O objeto débil de tais elementos tende a ser recebido com desprezo. De tal carência, contudo, extrai-se algo de valor, a denúncia de que há a necessidade de um resgate urgente da sanidade e da nobreza, justamente o oposto à debilidade que gera tal vazio. Diz Roger Scruton, no livro Beleza, que a Arte não evita o espetáculo da loucura, da malícia e da decadência humana; contudo, invoca o contraste entre tal disfuncionalidade e a grandeza humana, despertando uma oposição à tentativa de redução da nossa humanidade à animalidade.

    Tem-se, nesse sentido, que excessos, como o sentimentalismo do sujeito produtor do artefato, afastam a contemplação necessária ao ato estético, pois, no fundo, a intenção é compensar as deficiências, atiçando os ânimos em passes de mágica e malabarismos histriônicos; buscam adular e receber os afagos de grupos aos quais serve. Talvez, do respaldo deste mesmo grupo, surja-lhe a certeza prepotente que o público lhe deva admiração. Certeza escudada no relativismo proponente de que qualquer coisa pode ser denominada arte. A arte desse tipo, sem um genuíno sentimento inspirador, sem sinceridade, não possui razão estética que justifique as figurações apresentadas no objeto. As carências emocionais do artífice podem produzir arte carente.

    Distante de colocar o artífice em julgamento moral ou filosófico, a preocupação aqui é trazer à tona a atmosfera e as interações que estão ao redor das intensões geradoras do produto ofertado ao público. Atente-se que, no compromisso puro para com a arte, há uma espécie de inimputabilidade do artista. Impõe-se, por consequência, um problema de relação que abrange a dependência e a independência. Sucintamente, há independência do artista (escritor, poeta, etc.) na criação, e há independência do apreciador em seu juízo; por sua vez, há uma relação de dependência entre a impressão gerada pelo artefato e a sinceridade presente na síntese estética que expressa.

    A arte está inserida em um contexto complexo que envolve outros elementos com os quais interage. Além da sinceridade, há o aprimoramento, a maturidade, a prática, entre outros. A arte habita e diz respeito à inteligência da realidade, neste palco há um aspecto moral, sim, relativo ao compromisso com um ideal maior, que é a própria Arte. Sem essa relação de dever, restaria uma imoralidade resultante da impureza da pretensão, como se o artefato fosse uma oferenda a caprichos pessoais, charlatanismos ou crenças. Ora, seria “não mais o artista servindo a arte, mas esta servindo como vilíssima manceba aos privados e fúteis interesses daqueles” (CROCE, 2023, p. 82). Da mesma forma, ocorreria quando da utilização da experiência frente a uma obra, como adorno e pose para autopromoção.

    Desse conjunto referenciado, é possível o surgimento de afetos em contrariedade ao que foi exposto. Isto é significativo e importante, pois demonstra quão profundo nos está a arte e as considerações que sobre ela se façam. Esta breve reflexão aborda as representações artísticas e sua oferta de imagens das coisas humanas, que são de interesse permanente, além do processo próprio da criação. Disto provocaram-se questões sobre o gosto, a forma de apreciação e a forma de criação, porém, tendo como foco o respeito à arte em geral. Enfim, o que se revela é a nossa humanidade, a nossa universalidade, a maturidade e como compartilhamos de um mesmo destino.

 

Referências Bibliográficas

BENNETT, Arnold. Como formar o Gosto Literário. Tradução Ulisses Trevisan Palhavan. 1ª ed. Campinas, SP: Editora Auster, 2022.

CROCE, Benedetto. Breviário de Estética. Tradução Luciano Machado. Editora Sétimo Selo. Campinas, SP, 2023

SCRUTON, Roger. Beleza Tradução Hugo Langone. Editora É Realização. São Paulo, SP, 2013.

 

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 14/07/2025
Alterado em 14/07/2025
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