SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
PROSA, VERSOS E OUTRAS FALAS
Capa Textos Áudios Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos

Sobre Literatura, Crenças, Árvores e Vento

   A literatura tem o poder de mediação entre as pessoas e o mundo. Ela aprimora o entendimento sobre os fatos, atribuindo tonalidades que, de outra forma, não perceberíamos. Noto isso quando passo por uma praça e associo seus acontecimentos a um texto de Gilbert Chesterton que fala de vento e árvores.

   Aí, então, afino a percepção e vejo, lá acima, incógnitos pássaros da mesma pena voarem juntos; aqui abaixo, os bancos aguardarem vazios, pois não há mais tantas pessoas que os ocupem ao final da tarde. Contudo, caso os tomem, antolhos das telas dos celulares não lhes permitem correr a vista nem sobre as aves, nem sobre as sempre jovens estações que se revezam sobre as plantas. Reparo nos rostos mecânicos cruzando a praça sem se deterem em juízo, ato humano tão necessário.   

   Servido por tal contemplação, dou-me conta de que nesses espaços, eventualmente, estão presentes crianças em sua grandiosa tarefa de brincar, sob a vigilância dividida dos avós. Afinal, não se pode descuidar, logo ao lado, dos “filhos ou netos pets”, vale dizer, uma outorga que não garante aos bichos a noção de razoabilidade, mas, em sentido inverso, seus “pais pets”, podem dela ter preferido abrir mão. Ocorre-me que por maior direito que se tenha de imaginar uma biologia dos triângulos, mesmo assim, ela será uma fantasia ou um delírio.

   Bem, foi numa dessas andanças, envolvido por uma ventania, que cruzei com um guri assustado sendo acolhido pela avó: “Vó, faz parar isso. Tô com medo”; “É o vento, menino. Anda, vamos embora”.

Pode-se requerer constrangimento ao se servir das pessoas para interpretar o mundo. Porém, existe alívio ao se estimar que nada nos pertence que não esteja conectado a algo externo. Portanto, o que assisto, associado à provocação de Chesterton, leva-me a compreender a minha e a nossa circunstância. O que a criança temia? O rugido do vento puxando os troncos, prestes a arrancá-los com raiz e tudo, ou as árvores atirando-se contra a corrente de ar como feras raivosas amarradas à terra? 

   Repare a importância de se atentar, com sinceridade e empatia, ao que as pessoas falam. Ainda mais, quando perguntamos, com interesse, sobre o que pensam. Superando, consequentemente, a ansiedade dos incontidos que necessitam falar de si mesmos, mal o outro termina uma palavra. Nesse instante de acolhimento, encontramos modos diferentes de apreender aquilo que nos cerca, por exemplo, um ipê florido. Em sua plenitude, ele acolhe os olhos românticos dos namorados; recebe a atenção do botânico, que encontra um “Handroanthus”; há o voluntarioso olhar do ambientalista e, também, a prospecção do madeireiro, enfim, a mesma planta, distintas percepções e, não raras, tensões.    

   Ao vestirmos a retina da criança, deparamo-nos com a força da imaginação, com a experimentação e com as figuras de linguagem tentando explicar o mundo, neste caso, a energia inabarcável da natureza. Percebamos a confiança do pequeno, que crê, inocentemente, no poder da avó em aplacar o furioso leque das árvores a produzir vento. Por sua vez, à velha senhora é intrínseca a sensação de pequenez diante de tal ímpeto. Experimenta-se a realidade pela composição de seus elementos: as rajadas, as tramas de galhos e folhas, os mistérios do mundo e o medo, ele que está na raiz do movimento humano sobre a terra.

Partindo dessa revelação, sigamos a considerar as outras pessoas que por ali transitam. Aquelas que praguejam contra o vento a lhes turvar os olhos, como o homem excessivamente alto, de melenas revoltas, queixando-se de ter perdido a aposta em um jogo virtual. De vez em quando encontramos céticos de longa silhueta, em sua prática superioridade e incongruentes atitudes, que, caso se ativessem às árvores, estariam prontos a cutucar as densas copas para satisfazer a desconfiança, nascida do medo de coisas que não conseguem controlar.  Mas, será que responderiam: por que as árvores existem? De onde vem a força das flores quando enfrentam o vento?

   Haveremos de cruzar com o ateu vestindo a estampa Jesus Christ Is Fake News. Resoluto, em passos largos, caminha tentando desprender-se da própria sombra. Ele acredita que depois do vento haverá tempestade. Sempre crédulo em previsões incertas, porém, incapaz de julgar a sua profunda fé na inexistência de Deus ou a razoabilidade daquilo que colocou em seu lugar. Pois é, afirmar que não se tem uma crença ou filosofia, é estar preso a uma crença ou filosofia que o conduz a tal negação. Acho que no fundo ele experimenta a frustração dos rios, que contam apenas com o reflexo do céu, sem jamais possuí-lo.

    As incongruências nos fazem pensar em uma alquimia radical, que funde o medo, a impotência e o ódio gerando a prepotência. Tais personalidades, em sua convicta e pedante incoerência, faturam a pecha de alienados àqueles que têm fé e contemplam com esperança as árvores e as pessoas. Claro, seus anêmicos olhos voltam-se contra os que consideram um amontoado de equívocos, desejando convertê-los ao nada do seu nauseante materialismo ou, em caso de insucesso, o seu banimento a um lugar distante e solitário. Destino das pessoas que se tornaram excessivamente conscientes, como previra o senhor Aldous Huxley.  

   Quem não sabe que o radical egocentrismo atrofia-se em latente brutalidade, buscando alívio ao seu estado crônico de terror? Este é o contorno peculiar daqueles que querem submeter o mundo à régua de suas impotências. É o miasma surgido da transmutação da inocência infantil em infantilidade sem graça e perversa. Esse é o substrato da loucura dos experimentos contra a realidade, aqueles que impõem que se acredite que as árvores movam o vento. No tumulto da alma, na ânsia de terem uma crença adequada aos seus vazios, é que os fracassados, os ressentidos e os antissociais, bem vestidos de uma humanidade oportuna, sentam-se juntos em um banco que possam chamar de seu.

   Ali, no centro do seu ínfimo universo, em revolta contra a condição humana, é que idealizam o melhor jeito de eliminarem todos os demais bancos e quebrarem os ramos que se inclinam na direção indesejada. Luta, resistência e transformação são palavras de ordem que movem a insolência em nome de uma fantasiosa praça, que primeiro é colocada abaixo, para depois, ser reerguida com o suor e o sangue dos outros. Nesse momento, até os pássaros temerão cantar. 

    As cristas esfarrapadas das copas são o limite entre as coisas presentes e as ausentes, as visíveis e invisíveis, o que está abaixo e acima, feito o vento que estava lá antes das árvores e das pessoas. Ele é o espírito que cobria tudo, como todo invisível o faz onde quer. A confiança da criança é no poder da avó perante o perigo imaginado. A certeza da avó é na inevitabilidade da realidade.

   Serão diferentes os demais adultos escondendo suas dores e vazios em utopias chispadas pelo pincel do vento e pela arruaça das folhas? Serão diferentes os que permanecem com o pé no estribo do delírio, incapazes de avaliar que não podem igualar a imprevisibilidade que cada ser humano abriga? Em sua prosa pedestre e irrefletida, afeita a enaltecer o baixo, tentam encarcerar o incontrolável mistério humano em chão bruto, enquanto cortam os pés do banco onde sentam. Suas leis dizem de ambiciosos planos para reforma do mundo. Conclamam, não raras vezes, o determinismo de que o instinto tudo comanda, de que algo que não possa ser explicado por uma tabela de dados não existe; e que no dia da morte tudo termina, por isto, qualquer coisa serve para remediar a vida, que passaram a tratar do mesmo modo que uma doença.

   Por outro lado, a atenção debruçada sobre a praça expõe a infinitude do céu, os limites humanos, o esplendor da natureza, a seriedade das palavras, das brincadeiras e fantasias infantis. Seria desnecessário evocar a erudição. Seria dispensável recorrer a qualquer entidade sutil para notar a ordem existente nas coisas do mundo, para alcançar a mínima inteligibilidade daquilo que ele escancara e ver, enfim, que há coisas que nos acompanham desde sempre.

  Ora, um produtivo meio de enfrentar as diferenças e limitações humanas, sem sucumbir à frustração ou impor vingança e submissão, não é igualando à lâmina o que é naturalmente distinto, tirando o direito de se pensar diferente.  Está, sim, em coisas como a que chamamos de Arte. Ela aparece em um canteiro de amores-perfeitos, a quem queira só acolhê-los em contemplação reconhecendo com gratidão e humildade sua fulgência.

   A humildade não almeja o pretencioso “empoderamento” (diga-se, álibi vil), é por isso que a bem-aventurança dos fracos e falhos nos provoca respeito. Nos é natural a ordem que abriga ao mesmo tempo o pedido de socorro do menino à avó, as distintas formas de perceber a realidade e a súbita rajada sobre as plantas.  

  Tudo isso converge à vida mesma, ela é um tumulto. É o chamado ao fato de que em um segundo está contido um imensurável prodígio. Nos informa que o imutável aparecerá no devir, que são as incertezas que nos movem e que sem o sobrenatural, louvaremos ao artificial. Ainda, se é misterioso o motivo de se estar vivo, é nítido, no entanto, a existência de apenas um único dia para se morrer e, sendo assim, o indicativo é que os demais dias são um convite a se ter planos, até mesmo para depois da morte.

   A literatura pode ser uma lupa ou uma pequena descarga elétrica que atiça a lucidez, chamando os olhos para as camadas do entorno, tal qual foi provocado pelo texto de Gilbert Chesterton. Ele propõe que o grande dogma humano é o vento mover as árvores; por sua vez, a grande heresia é as árvores enlouquecidas moverem o vento. De um lado há a pureza inventiva do mundo infantil, que faz o menino assustado levar a mão à boca; e do outro, a brutalidade daqueles que propõem mudar o mundo sob o filtro dos resquícios de sua impotência infantil, cuja mão será levada contra o nariz do seu adversário, senão, em um golpe derradeiro, em sua nuca. Por fim, sigo pela praça, de passagem.

 

(Crônica vencedora do Concurso Professora Marlei Stein,  publicada  na XV ANTOLOGIA DA CASA DO POETA DE SÃO PEDRO DO SUL, RS - 2025)

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 28/11/2025
Alterado em 27/04/2026
Capa Textos Áudios Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links