SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
PROSA, VERSOS E OUTRAS FALAS
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Textos

 

Fica chamativo um título em inglês, não é? No entanto, ele não traz nada de novo. Repete o que já é conhecido nas mensagens motivacionais, nas receitas de sucesso e nos cursos milagrosos: “Apenas seja você mesmo”. Tudo normal no mundo dos diferentes igualados nas pretensões.

Contudo, ser quem se é não carrega essa conotação de “apenas”. Há um paradoxo: vivemos entre o ser singular, com suas potências; e o ser relacional, influenciado pelo meio. Essa tensão estrutura nossa vida social.

O problema surge quando esses polos se confundem, então surge um desconcerto envolvendo o egocentrismo e o alterocentrismo. Nesse circuito, o sujeito passa a imitar de modo doentio. Busca uma ilusória autossuficiência ao custo de um iminente colapso.

Esse ambiente convulsionado revela-se por meio de um problema de linguagem peculiar: o duplo vínculo. A pessoa recebe comandos contraditórios: “seja você mesmo”, mas seja único sendo igual a todos que tentam ser diferentes.

Assim está posta a armadilha conflitiva, produtora da frustração, da angústia, do ressentimento e do desespero. O indivíduo passa a desejar o que o outro deseja e entra na disputa por uma autenticidade que o transforma, ao fim, em “mais um”.

Há aqui também uma distorção do sentido da vida. Em vez de assumir a própria história, muitos tentam ajustá-la a modelos idealizados de sucesso. Produzem versões editadas de si e se afastam da própria biografia, muito mais rica que qualquer performance.

Nas redes sociais, isso se torna evidente: “mostre seu verdadeiro eu”, “libere o melhor de si” ou “você pode ser o que você quiser”; sim, exibindo apenas os melhores momentos, a melhor foto editada ou a melhor frase de impacto. O sujeito fica dividido entre ser quem é e sustentar a versão idealizada. O medo de ser o que se é decorre do risco de não se alcançar engajamento. Porém, lá no fundo, mesmo quando o desempenho é bom, resta uma sensação de farsa que aprofunda a baixa autoestima. Talvez o desconforto cessasse ao admitir que “o melhor de si” é justamente o que se tenta esconder.

Seja o que você é fugindo de si mesmo, embrenhando-se na multidão. No fluxo e refluxo da massa, em vez de pacificação, o encontro é com a ansiedade e com o conflito. É insuportável perceber que sempre haverá alguém mais inteligente, mais magro, mais musculoso ou mais talentoso. É sobre isso que a roda do vazio interior patina, em repetições de quem quer ser, até o fim, o outro.

A contemporaneidade experimenta esse círculo imitativo, responsável em grande medida pelo tédio e pelo descrédito em relação à própria realidade. A busca por modelos e visibilidade gera apenas frustração, pois alcançar o objeto leva ao desinteresse, e não alcançá-lo, ao ressentimento. Em ambos os casos, permanece a incompletude.

Quanto à incorporação dessa fantasia, lembremos do desespero do senhor Gregor Samsa. “Ah não... Kafka?!”, diria um bem letrado, embotado de tanto achar que sabe, divinizando a própria aquisição cultural, como tantos outros o fazem. Digo-lhe, sabedoria requer humildade my baby. Seja sensível, acolha minha referência.

Pois bem, vamos lá. Samsa vivia no modo automático, em função da performance. Tornou-se um monstro abalado não pela transformação sofrida, mas pelo sentimento de impotência. Queria ser visto, compreendido, acolhido, mas terminou abandonado.

Faço uma proposta, quando ingressarem nas redes sociais, experimentem viver Gregor. Sintam essa transformação monstruosa que o ambiente exige, todos igualados, vestidos de insetos, sem identidade e depois abandonados. Percebam como é questionável: a obsessão por “curtidas”, as atuações canastronas em busca de notoriedade e a insensatez dos modelos impostos.

O espaço vazio dá sentido ao ser de um vaso de flores, mas não ao ser humano. Tudo o que fomenta o vazio humano conduz ao desespero, combustível valioso no mercado. Sopesar a influência desse mau conselheiro pode evitar que qualquer coisa sirva para tentar, sem sucesso, recompor a estabilidade emocional.

Nesse mundo dos “livres de amarras e tabus”, é claro o paradoxo senhor-escravo: senhor de si, escravo da opinião alheia e do modelo a ser imitado. O vórtice da convulsão desta época é a negação de tudo isso. Quanto mais se tenta parecer único e liberto, mais se está embrenhado na sujeição e afogado no próprio orgulho.

Nesse quadro caótico, talvez seja necessário recuperar algo simples, mas frequentemente desprezado: a confiança na intuição. Sim, a intuição tão desacreditada, dando crédito ao seu sussurro: “ó, aí falta sinceridade”, “ei, isso é ridículo”.

Vale dizer que a imitação ordenada integra a formação humana. Não é cópia, mas assimilação, criação e abertura. Por isso, a escolha dos referenciais é decisiva, fixar-se no rasteiro e na falsidade é normalizar o absurdo.

Pois é, as almas sofridas esgotam-se na vertigem da validação. E nós? Corremos o risco de adoecer ao negar o que vemos, num esforço para banalizar o grotesco. Aos que habitam o próprio nome pergunto: o que vocês estão vendo ao seu redor?

 

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 21/04/2026
Alterado em 21/04/2026
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