SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
PROSA, VERSOS E OUTRAS FALAS
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UM REFLEXO

É notável o quanto as pessoas são atraídas pelo próprio reflexo ao passarem por uma vitrine, por um espelho junto à porta de uma loja ou pelo vidro escurecido de um carro estacionado.

Mas e se nos colocássemos na posição do espelho? Como se nos transformássemos no ente-habitáculo dos reflexos, um repositório de imagens carregadas de biografias rapidamente captadas num soslaio. Poderiam surgir imagens límpidas, sombrias ou partidas. Existiriam cabelos desgrenhados, lábios bojudos, tiques nervosos e lenços emoldurando uma alma adoentada, de olhos vazios ou de olhos que trazem um mundo de dor, feito santuário de uma eterna nostalgia.

Então, estaríamos, como todo espelho, em um estado de dedicação e complementaridade, acolhendo uma coleção de “eus”, ou em silenciosa espera pelo fenômeno do rosto-portal, de onde o humano se anuncia.

Há a face que se assusta com o que vê; a que se embevece; a que se exalta em um ‘Você conseguiu!’; outra que tenta evitar o próprio reflexo; aquela que não se reconhece; ainda outra que se reforça em ilusão; e a que se detém, vai e volta, esperando encontrar algo diferente ao retornar ou, quem sabe, confirmar aquilo que já havia visto.

Se um espelho tivesse sensibilidade, provaria o susto, o riso e o choro solidário. Perceberia que as pessoas, em suas imagens, revelam-se únicas e insubstituíveis e, como tais, aptas a alcançar a raiz de uma aliança singular, aquela que cria vínculos e responsabilidades intransferíveis em suas caminhadas rumo a um elevado propósito.

A moça ajusta o batom; o policial, o cinto; um senhor olha-se com desdém, de cima a baixo; o rapaz retesa o bíceps, movimentando a tatuagem tribal. Reconhecemo-nos pelos olhos dos outros e, na ausência deles, pela frágil compensação do espelho, quando se torna possível ao olho ver a si mesmo.

O espelho conforta a pulsão de ver e de ser visto, tão intrínseca e necessária a cada pessoa em seu senso mais primitivo. Ser visto para ser aceito, para perpetuar a espécie, ver para garantir a caça e precaver-se do predador.  Trata-se também de uma pulsão capaz de absorver o sujeito quando este faz de sua própria imagem o objeto devocional. É a neurose narcísica que o retira do mundo da ação para prendê-lo no mundo da imagem.

Diga-se, porém, que o espelho apenas expõe o que há de humano. Ele é incapaz de macular pelo olhar, pois reflete aquilo que se quer ver ou evitar. 

Na incansável espera, conecta incertezas e certezas em uma infinita linha temporal: à sua frente passaram rostos que já desapareceram e, no devir, seu quadro vazio aguarda a surpresa da próxima história.

Se disséssemos que a sinceridade denota transparência, então o espelho seria sincero? E um pedaço de vidro também seria? Afinal, ele é translúcido e deixa o olhar passar.

A sinceridade, no entanto, está além: constitui uma tensão criativa entre o que é visto, pensado, reconhecido, aceito e expresso. Ela acontece quando há coincidência entre o fato da imagem e a ideia que lhe corresponde. A complementaridade presente no espelho não permite a insinceridade, nem mesmo naqueles que distorcem a imagem. Por maior deformidade que alcance o rosto refletido, o sujeito rirá do efeito, mas logo se oporá instintivamente; após perguntar: “Sou eu?”, responderá: “Não sou assim”.

Há de se dizer, ainda, que as máscaras não pertencem ao espelho, pois quem se olha sabe, por mais que fuja, o que existe nos bastidores de seu disfarce. Sem rodeios, o espelho cumpre seu intento provocador e realista: apresentar a imagem ao conteúdo que a constitui. O espelho é uma esfinge que aguarda o reflexo dos olhos incertos sobre sua própria imagem, instante de hesitação entre ser o rosto por onde salta a alma ou ver-se como um objeto reduzido à sua matéria.  

Enfim, as luzes da vitrine se apagaram, a porta da loja fechou e, assim, deixamos para lá essa tolice de nos colocarmos no lugar do espelho. Talvez não devêssemos nos expor a um exercício tão doloroso de empatia e humildade. Seria de uma potência tão brutal que nenhuma palavra bastaria para expressar tamanha humanidade.

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 28/04/2026
Alterado em 29/04/2026
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