SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
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Textos

Cerzido

 

Era rancho modesto,

de largo cuidado,

de portas azuis

e jardim perfumado.

 

No seu fosforejo 

a lamparina serena

 abriga no ventre

trapo e querosena.

 

A velha almofada, que de enfeite serviu,

de tanta acolhida se fez catedral:

pra criança foi colo que nunca existiu,

foi vigília e alento no funeral.

 

Mergulhou a agulha de aço

no tecido esgarçado ─ chitão, penso eu ─

corcoveou com a linha em manso compasso;

e do fino cerzido a flor renasceu.

 

Renovou-se a trama, antes rasgada,

trazendo ao ar memória aspergida,

que vai pelas tábuas em canhonada

e volta ao pano, pedindo guarida.

 

No pesponto vai-se a noite, então;

ofício, em cruz, por fim concluído;

sobre almofada a côncava mão

escora o corpo já adormecido.

Ouça em: https://sergiofloresdecampos.prosaeverso.net/audio.php?cod=131414

SÉRGIO FLORES DE CAMPOS
Enviado por SÉRGIO FLORES DE CAMPOS em 12/05/2026
Alterado em 18/05/2026
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