Cerzido
Era rancho modesto,
de largo cuidado,
de portas azuis
e jardim perfumado.
No seu fosforejo
a lamparina serena
abriga no ventre
trapo e querosena.
A velha almofada, que de enfeite serviu,
de tanta acolhida se fez catedral:
pra criança foi colo que nunca existiu,
foi vigília e alento no funeral.
Mergulhou a agulha de aço
no tecido esgarçado ─ chitão, penso eu ─
corcoveou com a linha em manso compasso;
e do fino cerzido a flor renasceu.
Renovou-se a trama, antes rasgada,
trazendo ao ar memória aspergida,
que vai pelas tábuas em canhonada
e volta ao pano, pedindo guarida.
No pesponto vai-se a noite, então;
ofício, em cruz, por fim concluído;
sobre almofada a côncava mão
escora o corpo já adormecido.
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